quarta-feira, 4 de maio de 2011

Contemplando pedras em Quioto

Contemplando pedras em Quioto

Ledo engano pensar sumariamente que o Japão inteiro está neste momento tremendo, sofrendo as agruras de uma iminente crise nuclear. Para quem está ao sul de Tóquio, distante a cerca de 600 quilômetros da capital, o tempo é das Sakuras, das cerejeiras floridas. Todos os japoneses celebram ao advento da primavera visitando os parques recobertos por cerejeiras. Não se trata de uma espécie frutífera, foi desenvolvida exclusivamente para fins estéticos. Tudo que é belo carrega consigo sua dimensão efêmera, estas flores duram apenas duas semanas e celebram a passagem o tempo. As cerejeiras passam a ser progressivamente cultivadas, pois são de origem local, ao invés das ameixeiras, que vem da China. Eram em particular admiradas pelos samurais, soldados indicados pelo imperador, mas que tinham grande poder e autonomia no século XII, porque indicavam um modo forma de vida exemplar: embora seu florescer seja breve, é belo; as flores caem em conjunto, pétala por pétala e dão lugar as folhagens que vem a seguir. Vale salientar que o imperador aqui é visto de maneira distinta dos reinados presentes no ocidente, seu papel é mais do que simbólico e carrega consigo uma herança divina, mesmo que tenha abdicado deste seu poder após a segunda guerra mundial. O calendário japonês é feito de acordo com o imperador, de modo que cada ano equivale a de um determinado reinado. Quioto mantem uma richa com a atual capital, pois, na verdade, o imperador jamais oficializou sua saída da antiga capital, para os cidadãos daqui, ele está ainda em ferias em Tóquio. Em paralelo à sua presença quase invisível, pois ele raramente é visto, nota-se a presença constante de duas religiões que fazem parte da identidade japonesa: o xintoísmo e o budismo. A primeira tem uma origem propriamente japonesa, advém de mitos animistas, e trata antes de tudo da vida cotidiana, do dia a dia. A outra advém da Índia, passando pela China e chega ao Japão no século VI. O budismo é importante na administração da vida após a morte. É comum que um Japonês diga que não tem religião, mas que celebre em alguns momentos determinados ritos xintoístas e que enterre seus parentes em cemitérios budistas. Já o xintoísmo adquire um papel proeminente novamente a partir da restauração Meiji em 1868, onde o Japão é reunificado sob o reinado de um único imperador dotado poder divino. Ele reencarna o papel do primeiro imperador Jimmu Tenno (cerca de 600 a.c.) filho da principal divindade xintoísta, Amaterasu, a deusa solar. Pelo fato de ser identificado com uma religião do estado e celebrar o nacionalismo, muitas vezes esta religião entra em conflito com a filosofia budista, que advém do exterior e é portanto mais internacional, unindo países como a Índia, China e Japão. Os templos budistas tem portanto maior autonomia e em alguns momentos buscavam se contrapor ao poder imperial. Em outros momentos, as religiões se fundem, de modo que certas divindades xintoístas aparecem como manifestações do buda. No plano ético a veneração da natureza e o sentimento de estabilidade grupal são princípios determinantes. A arvore celebrada pelos tempos budistas é o pinheiro, pois suas folhas nunca caem e estão eternamente verdes.
No famoso jardim de pedras em Ryoan-ji, temos a expressão máxima do jardim zen. Fundado em 1473 por um dos nobres mais poderosos do período, Hosokawa Katsumoto, vassalo do xogunato de Ashikaga Yosimasa, o templo foi construído quando Hosokawa se deu conta que não iria viver muito mais tempo e decide então se retirar para uma vida com monges, de fato, ele morre no mesmo ano em que o templo foi construído. A concepção do jardim é atribuída ao pintor e jardineiro Soami (1472?-1525). Com formato retangular, medindo 25 metros por 10 metros, o jardim contem 15 pedras irregulares rodeadas por musgo e são envoltas por pedregulhos brancos minuciosamente dispostos formando um desenho ondulado. Ao seu lado, há um pavilhão onde se pode contemplar o jardim por horas a fio. Para alguém familiarizado com a arte contemporânea, trata-se de uma das mais belas instalações jamais vistas. Quanto mais se observa, mais o tamanho das pedras parece adquirir uma escala monumental, e o observador parece diminuir, como na famosa descrição da experiência do sublime do romantismo alemão. Elas parecem sempre distintas conforme o ponto de vista, mas salientam a sensação de permanência e estabilidade, em contraponto ao suntuoso jardim que ora apresenta sakura, ora celebra o outono e a passagem do tempo. Em uma terra que treme, este jardim celebra o oposto, a experiência zen do Satori, do despertar para a vida. Num momento em que toda a nação se torna mais solidária devido a tragédia do terremoto, seguido por um Tsunami que destroçou Fukushima, estas pedras são o exemplo da capacidade japonesa de procurar estabilidade quando tudo que “é solido parece se desmanchar no ar” a qualquer instante.


Marco Giannotti, Quioto, 10 de Abril de 2011
Ps. Agradeço ao Professor Ikunori Sumida da Kyoto University of Foreign affairs por algumas informações valiosas fornecidas para este artigo

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