domingo, 22 de maio de 2011
Tadap ando e a natureza invertida
Arte em diálogo com a natureza
Com obras expostas em meio à paisagem de ilha no Japão, projeto de Tadao Ando é inspirado em Claude Monet
22 de maio de 2011 | 0h 00
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Marco Giannotti - O Estado de S.Paulo
A passagem do tempo pode ser sentida no Japão através das estações, onde mudanças são visíveis e cultivadas pela prática milenar da jardinagem; quando a vegetação é minuciosamente planejada para se destacar tanto na primavera como no outono. Além do paisagismo, a arquitetura permeia a relação do homem com a natureza. O Japão tem uma longa tradição no preparo da madeira e do papel de arroz a fim de construir ambientes que dialoguem com as estações. Em muitos templos zen é possível encontrar um grande pátio que se abre para fora, permitindo a contemplação da natureza. Obviamente, apenas os nobres tinham esse privilégio do ócio, pois quando se trabalha arduamente no campo essa experiência é impraticável.
Da mesma forma que as estações renovam a natureza, a arquitetura também deve se renovar. Alguns templos xintoístas são inteiramente reconstruídos a cada 30 anos, pois "até os deuses gostam de uma casa nova". Contudo, após o intenso processo de reconstrução do país depois da Segunda Guerra Mundial, a harmonia entre o homem e a natureza sofre um abalo sísmico tremendo, pois a especulação imobiliária intensa abalou a relação harmônica das cidades com a paisagem. Em Osaka, onde nasceu o célebre arquiteto Tadao Ando, a cidade ficou como São Paulo, cortada por viadutos que a deixam fragmentada. O escritor Haruki Murakami diz que a cidade moderna no Japão se parece como a boca de uma criança na troca de dentes. Uma mesma avenida, ao longo do seu percurso, pode apresentar lojas de alto luxo ao lado de plátanos como nos Campos Elísios em Paris, para, em seguida, se tornar um local sujo de revenda de computadores.
Ao procurar um refúgio, um parque na cidade, me deparei com um shopping de oito andares chamado Namba Park, que tem apenas no terraço suspenso um pequeno jardim pré-moldado. Se no canal Dotombori é possível percorrê-lo como se estivéssemos em Veneza, infelizmente as fachadas, além de feias, não se voltam para o canal. A experiência só se torna instigante durante a noite, devido aos painéis luminosos eletrônicos que fazem a cidade pulsar.
Resgatar a "experiência perdida com a natureza" não é fácil nem aqui, nem no Brasil. Os espaços preservados sempre estão ameaçados. Certa vez, ao visitar a Casa das Canoas de Niemeyer, fiquei surpreso ao ver uma pedra imensa perpassar a sala até a piscina. Talvez o primeiro a explorar essa relação tenha sido Frank Lloyd Wright que, por sua vez, sempre manteve forte relação com a arquitetura japonesa. A casa foi projetada em 1951 e suscitou polêmica entre os arquitetos: li uma nota de Niemeyer ridicularizando Gropius, que o havia criticado pelo fato de sua casa não ser reprodutível! Mas o que torna esse projeto fascinante é justamente sua implantação no sítio. Niemeyer nos diz que sua "preocupação foi projetar essa residência com inteira liberdade, adaptando-a aos desníveis do terreno, sem o modificar, fazendo-a em curvas, de forma a permitir que a vegetação nelas penetrasse, sem a separação ostensiva da linha reta".
A Casa das Canoas é um dos exemplos mais perfeitos de como Niemeyer consegue integrar o projeto ao entorno, e é uma pena que a ampliação desordenada da favela vizinha na floresta acabe colocando em risco a preservação da casa e do jardim. Em sua parceria com o grande paisagista Burle Marx, essa preocupação em harmonizar a arquitetura com a natureza se manteve constante. Brasília, porém, altera essa situação, pois o cerrado deveria ser ocupado de maneira distinta graças às suas peculiaridades naturais. "Coube a Lucio Costa, o arquiteto brasileiro mais erudito do século, e a Oscar Niemeyer, o mais habilidoso, dar-lhe forma. Apartada da natureza, a "sua" Brasília ao mesmo tempo que prolongou um modo "tradicional" de lidar com o território no Brasil, inventou os meios de se pensar uma nova natureza construída. Nas palavras de Costa: "Ao contrário das cidades que se conformam e se ajustam à paisagem, no cerrado deserto e de encontro a um céu imenso, como em pleno mar a cidade criou a paisagem".
Brasil. Com o advento das novas metrópoles, a única maneira de resgatar uma relação "bucólica" com a natureza e a arte talvez seja se refugiar em sítios distantes. No Brasil, temos o exemplo de Inhotim, localizado perto de Belo Horizonte, que exibe suntuosos jardins com obras de arte instaladas ao seu redor, bem como nos edifícios especificamente construídos para abrigar obras de arte contemporâneas. O espaço concebido pela iniciativa privada se torna público ao permitir o acesso de todos. Em uma visita durante o fim de semana, notei um grande fluxo de público, inclusive com pessoas simples, o que demonstra o sucesso do empreendimento.
Um dos projetos mais complexos de Tadao Ando é justamente um projeto dessa natureza: A Benesse Art Site surgiu a partir da iniciativa privada em 1989 em uma ilha chamada Naoshima. O projeto atualmente engloba três museus com hotéis vicinais e algumas obras de arte expostas na paisagem e na cidade. Para Ando, a relação com a natureza parece ser o leitmotiv, a pedra de toque de seu projeto. Mas, cabe indagar, que natureza? Embora situado magistralmente no topo da ilha e oferecer uma vista deslumbrante, o projeto arquitetônico é muito mais impactante quando se volta para o interior, no diálogo entre as paredes de concreto e os jardins internos de inspiração zen. Nesse momento, a natureza exterior parece suspensa, o que importa é o diálogo controlado entre luz, pedra, concreto, planta, e musgo. "Construo espaços fechados principalmente por meio de grossas paredes de concreto. A razão principal é criar um lugar para o indivíduo, um lugar para si na sociedade. Quando os fatores externos do ambiente de uma cidade exigem que se faça uma parede sem aberturas, o interior deve ser pleno e gratificante... Algumas vezes as paredes manifestam um poder que chega a ser violento, pois têm poder de dividir espaços, transfigurar o lugar e criar novos domínios. As paredes são um dos elementos mais básicos da arquitetura e um dos mais gratificantes."
O museu Chichu é seu projeto mais ousado justamente por essas características, e o próprio nome é sintomático, pois remete à ideia de um bunker construído no interior de uma montanha. Tadao Ando afirma que fez isso justamente por respeito à natureza, não desejando fazer um projeto que violentasse a relação entre montanha e mar, algo que, infelizmente, ocorre com grande frequência no nosso litoral. O projeto é magnífico e oferece uma experiência peripatética, ao andar pelos corredores, temos o impacto da luz incidindo nas diversas superfícies do espaço. O motivo que inspirou a construção do museu foram as ninfeias de Claude Monet. O museu apresenta cinco obras, sendo que uma é de grande dimensão e faz parte da famosa série de pinturas que Monet em 1926 deixou como seu legado no museu de Orangerie em Paris. Monet é reverenciado por aqui, pois sua obra é a que mais revela o espírito japonês no Ocidente.
Em busca de um motivo para a sua pintura, o pintor construiu em Giverny um jardim artificial com lagos e ninfeias onde colocou, inclusive, uma ponte japonesa. Tadao Ando planejou uma sala impecavelmente branca, com paredes curvas, como em Orangerie, mas com a delicadeza japonesa dos detalhes. Entramos em uma sala com luz zenital, o chão é recoberto com teceras de mármore italiano. É preciso entrar com pantufas, para não sujar o ambiente, que se assemelha mais a um templo do que a uma sala de exposição: estamos diante de um espetáculo da natureza... pictórica! Os artistas contemporâneos que fazem contraponto a Monet são artistas internacionalmente reconhecidos pelo seu trabalho de instalações na natureza, a chamada Land Art.
No Chichu Museum, Walter de Maria instalou em uma escadaria especialmente concebida para o projeto uma enorme esfera negra de dois metros de diâmetro. Além disso, em todas as paredes da sala foram aplicadas barras laminadas de ouro em relevo. A esfera reflete todo o espaço interno e temos a impressão de estar numa sala devotada a algum culto misterioso.
No museu, James Turrell, por sua vez, trabalha eminentemente com cor e luz ao provocar no espectador sensações fisiológicas fascinantes e perturbadoras. O vão de uma sala é projetado com uma luz azul tão intensa que temos a sensação de estarmos diante de uma passagem para outra instância espiritual. Em ambos os casos, a experiência direta da natureza é colocada em suspenso, chegamos até a esquecer que estamos em uma ilha no Japão, pois todo conjunto almeja transcender o tempo e o espaço. Outro artista importante para Ando é o fotógrafo Hiroshi Sugimoto.
Limiar. No museu Benesse é possível ver várias imagens em preto em branco que retratam o limiar entre céu e mar, imagens que remetem às últimas pinturas de Mark Rothko, em que o sublime é novamente colocado em questão.
Sua obra é ainda mais fascinante dentro do hotel, em uma sala reservada para os nobres hospedes, onde imagens muito escuras aos poucos se revelam ao observador: a imagem de uma floresta noturna, a imagem de uma capela projetada por Ando que revela uma da cruz em contraluz. Podemos notar em todos esses casos um embate constante entre exterior e interior, o nosso espaço interior e o mundo que vemos à nossa volta.
Será que a arquitetura contemporânea procura resgatar esse diálogo com a natureza mediante essa experiência interna, fechada? Uma das respostas possíveis pode ser dada pelo Museu Brasileiro de Escultura, projetado por mais um ganhador do prêmio Pritzker, Paulo Mendes da Rocha. Inicialmente concebido para ser um museu sobre arte e paisagismo e abrigar um jardim, o museu se fecha para o exterior. De fato, é possível sentir mais a presença da natureza nas marcas e ranhuras do concreto do que no tímido jardim ao seu redor.
Com obras expostas em meio à paisagem de ilha no Japão, projeto de Tadao Ando é inspirado em Claude Monet
22 de maio de 2011 | 0h 00
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Marco Giannotti - O Estado de S.Paulo
A passagem do tempo pode ser sentida no Japão através das estações, onde mudanças são visíveis e cultivadas pela prática milenar da jardinagem; quando a vegetação é minuciosamente planejada para se destacar tanto na primavera como no outono. Além do paisagismo, a arquitetura permeia a relação do homem com a natureza. O Japão tem uma longa tradição no preparo da madeira e do papel de arroz a fim de construir ambientes que dialoguem com as estações. Em muitos templos zen é possível encontrar um grande pátio que se abre para fora, permitindo a contemplação da natureza. Obviamente, apenas os nobres tinham esse privilégio do ócio, pois quando se trabalha arduamente no campo essa experiência é impraticável.
Da mesma forma que as estações renovam a natureza, a arquitetura também deve se renovar. Alguns templos xintoístas são inteiramente reconstruídos a cada 30 anos, pois "até os deuses gostam de uma casa nova". Contudo, após o intenso processo de reconstrução do país depois da Segunda Guerra Mundial, a harmonia entre o homem e a natureza sofre um abalo sísmico tremendo, pois a especulação imobiliária intensa abalou a relação harmônica das cidades com a paisagem. Em Osaka, onde nasceu o célebre arquiteto Tadao Ando, a cidade ficou como São Paulo, cortada por viadutos que a deixam fragmentada. O escritor Haruki Murakami diz que a cidade moderna no Japão se parece como a boca de uma criança na troca de dentes. Uma mesma avenida, ao longo do seu percurso, pode apresentar lojas de alto luxo ao lado de plátanos como nos Campos Elísios em Paris, para, em seguida, se tornar um local sujo de revenda de computadores.
Ao procurar um refúgio, um parque na cidade, me deparei com um shopping de oito andares chamado Namba Park, que tem apenas no terraço suspenso um pequeno jardim pré-moldado. Se no canal Dotombori é possível percorrê-lo como se estivéssemos em Veneza, infelizmente as fachadas, além de feias, não se voltam para o canal. A experiência só se torna instigante durante a noite, devido aos painéis luminosos eletrônicos que fazem a cidade pulsar.
Resgatar a "experiência perdida com a natureza" não é fácil nem aqui, nem no Brasil. Os espaços preservados sempre estão ameaçados. Certa vez, ao visitar a Casa das Canoas de Niemeyer, fiquei surpreso ao ver uma pedra imensa perpassar a sala até a piscina. Talvez o primeiro a explorar essa relação tenha sido Frank Lloyd Wright que, por sua vez, sempre manteve forte relação com a arquitetura japonesa. A casa foi projetada em 1951 e suscitou polêmica entre os arquitetos: li uma nota de Niemeyer ridicularizando Gropius, que o havia criticado pelo fato de sua casa não ser reprodutível! Mas o que torna esse projeto fascinante é justamente sua implantação no sítio. Niemeyer nos diz que sua "preocupação foi projetar essa residência com inteira liberdade, adaptando-a aos desníveis do terreno, sem o modificar, fazendo-a em curvas, de forma a permitir que a vegetação nelas penetrasse, sem a separação ostensiva da linha reta".
A Casa das Canoas é um dos exemplos mais perfeitos de como Niemeyer consegue integrar o projeto ao entorno, e é uma pena que a ampliação desordenada da favela vizinha na floresta acabe colocando em risco a preservação da casa e do jardim. Em sua parceria com o grande paisagista Burle Marx, essa preocupação em harmonizar a arquitetura com a natureza se manteve constante. Brasília, porém, altera essa situação, pois o cerrado deveria ser ocupado de maneira distinta graças às suas peculiaridades naturais. "Coube a Lucio Costa, o arquiteto brasileiro mais erudito do século, e a Oscar Niemeyer, o mais habilidoso, dar-lhe forma. Apartada da natureza, a "sua" Brasília ao mesmo tempo que prolongou um modo "tradicional" de lidar com o território no Brasil, inventou os meios de se pensar uma nova natureza construída. Nas palavras de Costa: "Ao contrário das cidades que se conformam e se ajustam à paisagem, no cerrado deserto e de encontro a um céu imenso, como em pleno mar a cidade criou a paisagem".
Brasil. Com o advento das novas metrópoles, a única maneira de resgatar uma relação "bucólica" com a natureza e a arte talvez seja se refugiar em sítios distantes. No Brasil, temos o exemplo de Inhotim, localizado perto de Belo Horizonte, que exibe suntuosos jardins com obras de arte instaladas ao seu redor, bem como nos edifícios especificamente construídos para abrigar obras de arte contemporâneas. O espaço concebido pela iniciativa privada se torna público ao permitir o acesso de todos. Em uma visita durante o fim de semana, notei um grande fluxo de público, inclusive com pessoas simples, o que demonstra o sucesso do empreendimento.
Um dos projetos mais complexos de Tadao Ando é justamente um projeto dessa natureza: A Benesse Art Site surgiu a partir da iniciativa privada em 1989 em uma ilha chamada Naoshima. O projeto atualmente engloba três museus com hotéis vicinais e algumas obras de arte expostas na paisagem e na cidade. Para Ando, a relação com a natureza parece ser o leitmotiv, a pedra de toque de seu projeto. Mas, cabe indagar, que natureza? Embora situado magistralmente no topo da ilha e oferecer uma vista deslumbrante, o projeto arquitetônico é muito mais impactante quando se volta para o interior, no diálogo entre as paredes de concreto e os jardins internos de inspiração zen. Nesse momento, a natureza exterior parece suspensa, o que importa é o diálogo controlado entre luz, pedra, concreto, planta, e musgo. "Construo espaços fechados principalmente por meio de grossas paredes de concreto. A razão principal é criar um lugar para o indivíduo, um lugar para si na sociedade. Quando os fatores externos do ambiente de uma cidade exigem que se faça uma parede sem aberturas, o interior deve ser pleno e gratificante... Algumas vezes as paredes manifestam um poder que chega a ser violento, pois têm poder de dividir espaços, transfigurar o lugar e criar novos domínios. As paredes são um dos elementos mais básicos da arquitetura e um dos mais gratificantes."
O museu Chichu é seu projeto mais ousado justamente por essas características, e o próprio nome é sintomático, pois remete à ideia de um bunker construído no interior de uma montanha. Tadao Ando afirma que fez isso justamente por respeito à natureza, não desejando fazer um projeto que violentasse a relação entre montanha e mar, algo que, infelizmente, ocorre com grande frequência no nosso litoral. O projeto é magnífico e oferece uma experiência peripatética, ao andar pelos corredores, temos o impacto da luz incidindo nas diversas superfícies do espaço. O motivo que inspirou a construção do museu foram as ninfeias de Claude Monet. O museu apresenta cinco obras, sendo que uma é de grande dimensão e faz parte da famosa série de pinturas que Monet em 1926 deixou como seu legado no museu de Orangerie em Paris. Monet é reverenciado por aqui, pois sua obra é a que mais revela o espírito japonês no Ocidente.
Em busca de um motivo para a sua pintura, o pintor construiu em Giverny um jardim artificial com lagos e ninfeias onde colocou, inclusive, uma ponte japonesa. Tadao Ando planejou uma sala impecavelmente branca, com paredes curvas, como em Orangerie, mas com a delicadeza japonesa dos detalhes. Entramos em uma sala com luz zenital, o chão é recoberto com teceras de mármore italiano. É preciso entrar com pantufas, para não sujar o ambiente, que se assemelha mais a um templo do que a uma sala de exposição: estamos diante de um espetáculo da natureza... pictórica! Os artistas contemporâneos que fazem contraponto a Monet são artistas internacionalmente reconhecidos pelo seu trabalho de instalações na natureza, a chamada Land Art.
No Chichu Museum, Walter de Maria instalou em uma escadaria especialmente concebida para o projeto uma enorme esfera negra de dois metros de diâmetro. Além disso, em todas as paredes da sala foram aplicadas barras laminadas de ouro em relevo. A esfera reflete todo o espaço interno e temos a impressão de estar numa sala devotada a algum culto misterioso.
No museu, James Turrell, por sua vez, trabalha eminentemente com cor e luz ao provocar no espectador sensações fisiológicas fascinantes e perturbadoras. O vão de uma sala é projetado com uma luz azul tão intensa que temos a sensação de estarmos diante de uma passagem para outra instância espiritual. Em ambos os casos, a experiência direta da natureza é colocada em suspenso, chegamos até a esquecer que estamos em uma ilha no Japão, pois todo conjunto almeja transcender o tempo e o espaço. Outro artista importante para Ando é o fotógrafo Hiroshi Sugimoto.
Limiar. No museu Benesse é possível ver várias imagens em preto em branco que retratam o limiar entre céu e mar, imagens que remetem às últimas pinturas de Mark Rothko, em que o sublime é novamente colocado em questão.
Sua obra é ainda mais fascinante dentro do hotel, em uma sala reservada para os nobres hospedes, onde imagens muito escuras aos poucos se revelam ao observador: a imagem de uma floresta noturna, a imagem de uma capela projetada por Ando que revela uma da cruz em contraluz. Podemos notar em todos esses casos um embate constante entre exterior e interior, o nosso espaço interior e o mundo que vemos à nossa volta.
Será que a arquitetura contemporânea procura resgatar esse diálogo com a natureza mediante essa experiência interna, fechada? Uma das respostas possíveis pode ser dada pelo Museu Brasileiro de Escultura, projetado por mais um ganhador do prêmio Pritzker, Paulo Mendes da Rocha. Inicialmente concebido para ser um museu sobre arte e paisagismo e abrigar um jardim, o museu se fecha para o exterior. De fato, é possível sentir mais a presença da natureza nas marcas e ranhuras do concreto do que no tímido jardim ao seu redor.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Contemplando pedras em Quioto
Contemplando pedras em Quioto
Ledo engano pensar sumariamente que o Japão inteiro está neste momento tremendo, sofrendo as agruras de uma iminente crise nuclear. Para quem está ao sul de Tóquio, distante a cerca de 600 quilômetros da capital, o tempo é das Sakuras, das cerejeiras floridas. Todos os japoneses celebram ao advento da primavera visitando os parques recobertos por cerejeiras. Não se trata de uma espécie frutífera, foi desenvolvida exclusivamente para fins estéticos. Tudo que é belo carrega consigo sua dimensão efêmera, estas flores duram apenas duas semanas e celebram a passagem o tempo. As cerejeiras passam a ser progressivamente cultivadas, pois são de origem local, ao invés das ameixeiras, que vem da China. Eram em particular admiradas pelos samurais, soldados indicados pelo imperador, mas que tinham grande poder e autonomia no século XII, porque indicavam um modo forma de vida exemplar: embora seu florescer seja breve, é belo; as flores caem em conjunto, pétala por pétala e dão lugar as folhagens que vem a seguir. Vale salientar que o imperador aqui é visto de maneira distinta dos reinados presentes no ocidente, seu papel é mais do que simbólico e carrega consigo uma herança divina, mesmo que tenha abdicado deste seu poder após a segunda guerra mundial. O calendário japonês é feito de acordo com o imperador, de modo que cada ano equivale a de um determinado reinado. Quioto mantem uma richa com a atual capital, pois, na verdade, o imperador jamais oficializou sua saída da antiga capital, para os cidadãos daqui, ele está ainda em ferias em Tóquio. Em paralelo à sua presença quase invisível, pois ele raramente é visto, nota-se a presença constante de duas religiões que fazem parte da identidade japonesa: o xintoísmo e o budismo. A primeira tem uma origem propriamente japonesa, advém de mitos animistas, e trata antes de tudo da vida cotidiana, do dia a dia. A outra advém da Índia, passando pela China e chega ao Japão no século VI. O budismo é importante na administração da vida após a morte. É comum que um Japonês diga que não tem religião, mas que celebre em alguns momentos determinados ritos xintoístas e que enterre seus parentes em cemitérios budistas. Já o xintoísmo adquire um papel proeminente novamente a partir da restauração Meiji em 1868, onde o Japão é reunificado sob o reinado de um único imperador dotado poder divino. Ele reencarna o papel do primeiro imperador Jimmu Tenno (cerca de 600 a.c.) filho da principal divindade xintoísta, Amaterasu, a deusa solar. Pelo fato de ser identificado com uma religião do estado e celebrar o nacionalismo, muitas vezes esta religião entra em conflito com a filosofia budista, que advém do exterior e é portanto mais internacional, unindo países como a Índia, China e Japão. Os templos budistas tem portanto maior autonomia e em alguns momentos buscavam se contrapor ao poder imperial. Em outros momentos, as religiões se fundem, de modo que certas divindades xintoístas aparecem como manifestações do buda. No plano ético a veneração da natureza e o sentimento de estabilidade grupal são princípios determinantes. A arvore celebrada pelos tempos budistas é o pinheiro, pois suas folhas nunca caem e estão eternamente verdes.
No famoso jardim de pedras em Ryoan-ji, temos a expressão máxima do jardim zen. Fundado em 1473 por um dos nobres mais poderosos do período, Hosokawa Katsumoto, vassalo do xogunato de Ashikaga Yosimasa, o templo foi construído quando Hosokawa se deu conta que não iria viver muito mais tempo e decide então se retirar para uma vida com monges, de fato, ele morre no mesmo ano em que o templo foi construído. A concepção do jardim é atribuída ao pintor e jardineiro Soami (1472?-1525). Com formato retangular, medindo 25 metros por 10 metros, o jardim contem 15 pedras irregulares rodeadas por musgo e são envoltas por pedregulhos brancos minuciosamente dispostos formando um desenho ondulado. Ao seu lado, há um pavilhão onde se pode contemplar o jardim por horas a fio. Para alguém familiarizado com a arte contemporânea, trata-se de uma das mais belas instalações jamais vistas. Quanto mais se observa, mais o tamanho das pedras parece adquirir uma escala monumental, e o observador parece diminuir, como na famosa descrição da experiência do sublime do romantismo alemão. Elas parecem sempre distintas conforme o ponto de vista, mas salientam a sensação de permanência e estabilidade, em contraponto ao suntuoso jardim que ora apresenta sakura, ora celebra o outono e a passagem do tempo. Em uma terra que treme, este jardim celebra o oposto, a experiência zen do Satori, do despertar para a vida. Num momento em que toda a nação se torna mais solidária devido a tragédia do terremoto, seguido por um Tsunami que destroçou Fukushima, estas pedras são o exemplo da capacidade japonesa de procurar estabilidade quando tudo que “é solido parece se desmanchar no ar” a qualquer instante.
Marco Giannotti, Quioto, 10 de Abril de 2011
Ps. Agradeço ao Professor Ikunori Sumida da Kyoto University of Foreign affairs por algumas informações valiosas fornecidas para este artigo
Ledo engano pensar sumariamente que o Japão inteiro está neste momento tremendo, sofrendo as agruras de uma iminente crise nuclear. Para quem está ao sul de Tóquio, distante a cerca de 600 quilômetros da capital, o tempo é das Sakuras, das cerejeiras floridas. Todos os japoneses celebram ao advento da primavera visitando os parques recobertos por cerejeiras. Não se trata de uma espécie frutífera, foi desenvolvida exclusivamente para fins estéticos. Tudo que é belo carrega consigo sua dimensão efêmera, estas flores duram apenas duas semanas e celebram a passagem o tempo. As cerejeiras passam a ser progressivamente cultivadas, pois são de origem local, ao invés das ameixeiras, que vem da China. Eram em particular admiradas pelos samurais, soldados indicados pelo imperador, mas que tinham grande poder e autonomia no século XII, porque indicavam um modo forma de vida exemplar: embora seu florescer seja breve, é belo; as flores caem em conjunto, pétala por pétala e dão lugar as folhagens que vem a seguir. Vale salientar que o imperador aqui é visto de maneira distinta dos reinados presentes no ocidente, seu papel é mais do que simbólico e carrega consigo uma herança divina, mesmo que tenha abdicado deste seu poder após a segunda guerra mundial. O calendário japonês é feito de acordo com o imperador, de modo que cada ano equivale a de um determinado reinado. Quioto mantem uma richa com a atual capital, pois, na verdade, o imperador jamais oficializou sua saída da antiga capital, para os cidadãos daqui, ele está ainda em ferias em Tóquio. Em paralelo à sua presença quase invisível, pois ele raramente é visto, nota-se a presença constante de duas religiões que fazem parte da identidade japonesa: o xintoísmo e o budismo. A primeira tem uma origem propriamente japonesa, advém de mitos animistas, e trata antes de tudo da vida cotidiana, do dia a dia. A outra advém da Índia, passando pela China e chega ao Japão no século VI. O budismo é importante na administração da vida após a morte. É comum que um Japonês diga que não tem religião, mas que celebre em alguns momentos determinados ritos xintoístas e que enterre seus parentes em cemitérios budistas. Já o xintoísmo adquire um papel proeminente novamente a partir da restauração Meiji em 1868, onde o Japão é reunificado sob o reinado de um único imperador dotado poder divino. Ele reencarna o papel do primeiro imperador Jimmu Tenno (cerca de 600 a.c.) filho da principal divindade xintoísta, Amaterasu, a deusa solar. Pelo fato de ser identificado com uma religião do estado e celebrar o nacionalismo, muitas vezes esta religião entra em conflito com a filosofia budista, que advém do exterior e é portanto mais internacional, unindo países como a Índia, China e Japão. Os templos budistas tem portanto maior autonomia e em alguns momentos buscavam se contrapor ao poder imperial. Em outros momentos, as religiões se fundem, de modo que certas divindades xintoístas aparecem como manifestações do buda. No plano ético a veneração da natureza e o sentimento de estabilidade grupal são princípios determinantes. A arvore celebrada pelos tempos budistas é o pinheiro, pois suas folhas nunca caem e estão eternamente verdes.
No famoso jardim de pedras em Ryoan-ji, temos a expressão máxima do jardim zen. Fundado em 1473 por um dos nobres mais poderosos do período, Hosokawa Katsumoto, vassalo do xogunato de Ashikaga Yosimasa, o templo foi construído quando Hosokawa se deu conta que não iria viver muito mais tempo e decide então se retirar para uma vida com monges, de fato, ele morre no mesmo ano em que o templo foi construído. A concepção do jardim é atribuída ao pintor e jardineiro Soami (1472?-1525). Com formato retangular, medindo 25 metros por 10 metros, o jardim contem 15 pedras irregulares rodeadas por musgo e são envoltas por pedregulhos brancos minuciosamente dispostos formando um desenho ondulado. Ao seu lado, há um pavilhão onde se pode contemplar o jardim por horas a fio. Para alguém familiarizado com a arte contemporânea, trata-se de uma das mais belas instalações jamais vistas. Quanto mais se observa, mais o tamanho das pedras parece adquirir uma escala monumental, e o observador parece diminuir, como na famosa descrição da experiência do sublime do romantismo alemão. Elas parecem sempre distintas conforme o ponto de vista, mas salientam a sensação de permanência e estabilidade, em contraponto ao suntuoso jardim que ora apresenta sakura, ora celebra o outono e a passagem do tempo. Em uma terra que treme, este jardim celebra o oposto, a experiência zen do Satori, do despertar para a vida. Num momento em que toda a nação se torna mais solidária devido a tragédia do terremoto, seguido por um Tsunami que destroçou Fukushima, estas pedras são o exemplo da capacidade japonesa de procurar estabilidade quando tudo que “é solido parece se desmanchar no ar” a qualquer instante.
Marco Giannotti, Quioto, 10 de Abril de 2011
Ps. Agradeço ao Professor Ikunori Sumida da Kyoto University of Foreign affairs por algumas informações valiosas fornecidas para este artigo
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Contemplando pedras em Quioto
Contemplando pedras em Quioto
Ledo engano pensar sumariamente que o Japão inteiro está neste momento tremendo, sofrendo as agruras de uma iminente crise nuclear. Para quem está ao sul de Tóquio, distante a cerca de 600 quilômetros da capital, o tempo é das Sakuras, das cerejeiras floridas. Todos os japoneses celebram ao advento da primavera visitando os parques recobertos por cerejeiras. Não se trata de uma espécie frutífera, foi desenvolvida exclusivamente para fins estéticos. Tudo que é belo carrega consigo sua dimensão efêmera, estas flores duram apenas duas semanas e celebram a passagem o tempo. As cerejeiras passam a ser progressivamente cultivadas, pois são de origem local, ao invés das ameixeiras, que vem da China. Eram em particular admiradas pelos samurais, soldados indicados pelo imperador, mas que tinham grande poder e autonomia no século XII, porque indicavam um modo forma de vida exemplar: embora seu florescer seja breve, é belo; as flores caem em conjunto, pétala por pétala e dão lugar as folhagens que vem a seguir. Vale salientar que o imperador aqui é visto de maneira distinta dos reinados presentes no ocidente, seu papel é mais do que simbólico e carrega consigo uma herança divina, mesmo que tenha abdicado deste seu poder após a segunda guerra mundial. O calendário japonês é feito de acordo com o imperador, de modo que cada ano equivale a de um determinado reinado. Quioto mantem uma richa com a atual capital, pois, na verdade, o imperador jamais oficializou sua saída da antiga capital, para os cidadãos daqui, ele está ainda em ferias em Tóquio. Em paralelo à sua presença quase invisível, pois ele raramente é visto, nota-se a presença constante de duas religiões que fazem parte da identidade japonesa: o xintoísmo e o budismo. A primeira tem uma origem propriamente japonesa, advém de mitos animistas, e trata antes de tudo da vida cotidiana, do dia a dia. A outra advém da Índia, passando pela China e chega ao Japão no século VI. O budismo é importante na administração da vida após a morte. É comum que um Japonês diga que não tem religião, mas que celebre em alguns momentos determinados ritos xintoístas e que enterre seus parentes em cemitérios budistas. Já o xintoísmo adquire um papel proeminente novamente a partir da restauração Meiji em 1868, onde o Japão é reunificado sob o reinado de um único imperador dotado poder divino. Ele reencarna o papel do primeiro imperador Jimmu Tenno (cerca de 600 a.c.) filho da principal divindade xintoísta, Amaterasu, a deusa solar. Pelo fato de ser identificado com uma religião do estado e celebrar o nacionalismo, muitas vezes esta religião entra em conflito com a filosofia budista, que advém do exterior e é portanto mais internacional, unindo países como a Índia, China e Japão. Os templos budistas tem portanto maior autonomia e em alguns momentos buscavam se contrapor ao poder imperial. Em outros momentos, as religiões se fundem, de modo que certas divindades xintoístas aparecem como manifestações do buda. No plano ético a veneração da natureza e o sentimento de estabilidade grupal são princípios determinantes. A arvore celebrada pelos tempos budistas é o pinheiro, pois suas folhas nunca caem e estão eternamente verdes.
No famoso jardim de pedras em Ryoan-ji, temos a expressão máxima do jardim zen. Fundado em 1473 por um dos nobres mais poderosos do período, Hosokawa Katsumoto, vassalo do xogunato de Ashikaga Yosimasa, o templo foi construído quando Hosokawa se deu conta que não iria viver muito mais tempo e decide então se retirar para uma vida com monges, de fato, ele morre no mesmo ano em que o templo foi construído. A concepção do jardim é atribuída ao pintor e jardineiro Soami (1472?-1525). Com formato retangular, medindo 25 metros por 10 metros, o jardim contem 15 pedras irregulares rodeadas por musgo e são envoltas por pedregulhos brancos minuciosamente dispostos formando um desenho ondulado. Ao seu lado, há um pavilhão onde se pode contemplar o jardim por horas a fio. Para alguém familiarizado com a arte contemporânea, trata-se de uma das mais belas instalações jamais vistas. Quanto mais se observa, mais o tamanho das pedras parece adquirir uma escala monumental, e o observador parece diminuir, como na famosa descrição da experiência do sublime do romantismo alemão. Elas parecem sempre distintas conforme o ponto de vista, mas salientam a sensação de permanência e estabilidade, em contraponto ao suntuoso jardim que ora apresenta sakura, ora celebra o outono e a passagem do tempo. Em uma terra que treme, este jardim celebra o oposto, a experiência zen do Satori, do despertar para a vida. Num momento em que toda a nação se torna mais solidária devido a tragédia do terremoto, seguido por um Tsunami que destroçou Fukushima, estas pedras são o exemplo da capacidade japonesa de procurar estabilidade quando tudo que “é solido parece se desmanchar no ar” a qualquer instante.
Marco Giannotti, Quioto, 10 de Abril de 2011
Ps. Agradeço ao Professor Ikunori Sumida da Kyoto University of Foreign affairs por algumas informações valiosas fornecidas para este artigo
Ledo engano pensar sumariamente que o Japão inteiro está neste momento tremendo, sofrendo as agruras de uma iminente crise nuclear. Para quem está ao sul de Tóquio, distante a cerca de 600 quilômetros da capital, o tempo é das Sakuras, das cerejeiras floridas. Todos os japoneses celebram ao advento da primavera visitando os parques recobertos por cerejeiras. Não se trata de uma espécie frutífera, foi desenvolvida exclusivamente para fins estéticos. Tudo que é belo carrega consigo sua dimensão efêmera, estas flores duram apenas duas semanas e celebram a passagem o tempo. As cerejeiras passam a ser progressivamente cultivadas, pois são de origem local, ao invés das ameixeiras, que vem da China. Eram em particular admiradas pelos samurais, soldados indicados pelo imperador, mas que tinham grande poder e autonomia no século XII, porque indicavam um modo forma de vida exemplar: embora seu florescer seja breve, é belo; as flores caem em conjunto, pétala por pétala e dão lugar as folhagens que vem a seguir. Vale salientar que o imperador aqui é visto de maneira distinta dos reinados presentes no ocidente, seu papel é mais do que simbólico e carrega consigo uma herança divina, mesmo que tenha abdicado deste seu poder após a segunda guerra mundial. O calendário japonês é feito de acordo com o imperador, de modo que cada ano equivale a de um determinado reinado. Quioto mantem uma richa com a atual capital, pois, na verdade, o imperador jamais oficializou sua saída da antiga capital, para os cidadãos daqui, ele está ainda em ferias em Tóquio. Em paralelo à sua presença quase invisível, pois ele raramente é visto, nota-se a presença constante de duas religiões que fazem parte da identidade japonesa: o xintoísmo e o budismo. A primeira tem uma origem propriamente japonesa, advém de mitos animistas, e trata antes de tudo da vida cotidiana, do dia a dia. A outra advém da Índia, passando pela China e chega ao Japão no século VI. O budismo é importante na administração da vida após a morte. É comum que um Japonês diga que não tem religião, mas que celebre em alguns momentos determinados ritos xintoístas e que enterre seus parentes em cemitérios budistas. Já o xintoísmo adquire um papel proeminente novamente a partir da restauração Meiji em 1868, onde o Japão é reunificado sob o reinado de um único imperador dotado poder divino. Ele reencarna o papel do primeiro imperador Jimmu Tenno (cerca de 600 a.c.) filho da principal divindade xintoísta, Amaterasu, a deusa solar. Pelo fato de ser identificado com uma religião do estado e celebrar o nacionalismo, muitas vezes esta religião entra em conflito com a filosofia budista, que advém do exterior e é portanto mais internacional, unindo países como a Índia, China e Japão. Os templos budistas tem portanto maior autonomia e em alguns momentos buscavam se contrapor ao poder imperial. Em outros momentos, as religiões se fundem, de modo que certas divindades xintoístas aparecem como manifestações do buda. No plano ético a veneração da natureza e o sentimento de estabilidade grupal são princípios determinantes. A arvore celebrada pelos tempos budistas é o pinheiro, pois suas folhas nunca caem e estão eternamente verdes.
No famoso jardim de pedras em Ryoan-ji, temos a expressão máxima do jardim zen. Fundado em 1473 por um dos nobres mais poderosos do período, Hosokawa Katsumoto, vassalo do xogunato de Ashikaga Yosimasa, o templo foi construído quando Hosokawa se deu conta que não iria viver muito mais tempo e decide então se retirar para uma vida com monges, de fato, ele morre no mesmo ano em que o templo foi construído. A concepção do jardim é atribuída ao pintor e jardineiro Soami (1472?-1525). Com formato retangular, medindo 25 metros por 10 metros, o jardim contem 15 pedras irregulares rodeadas por musgo e são envoltas por pedregulhos brancos minuciosamente dispostos formando um desenho ondulado. Ao seu lado, há um pavilhão onde se pode contemplar o jardim por horas a fio. Para alguém familiarizado com a arte contemporânea, trata-se de uma das mais belas instalações jamais vistas. Quanto mais se observa, mais o tamanho das pedras parece adquirir uma escala monumental, e o observador parece diminuir, como na famosa descrição da experiência do sublime do romantismo alemão. Elas parecem sempre distintas conforme o ponto de vista, mas salientam a sensação de permanência e estabilidade, em contraponto ao suntuoso jardim que ora apresenta sakura, ora celebra o outono e a passagem do tempo. Em uma terra que treme, este jardim celebra o oposto, a experiência zen do Satori, do despertar para a vida. Num momento em que toda a nação se torna mais solidária devido a tragédia do terremoto, seguido por um Tsunami que destroçou Fukushima, estas pedras são o exemplo da capacidade japonesa de procurar estabilidade quando tudo que “é solido parece se desmanchar no ar” a qualquer instante.
Marco Giannotti, Quioto, 10 de Abril de 2011
Ps. Agradeço ao Professor Ikunori Sumida da Kyoto University of Foreign affairs por algumas informações valiosas fornecidas para este artigo
segunda-feira, 1 de março de 2010
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